A Verdade sobre Pitbulls

 

RENEGADOS

por Priscilla Merlino
e Ricardo Mangold

Aos oito anos, o pit bull Storm acaba de ganhar uma companhia da mesma raça. Trata-se do pequeno Aquilles, que, com três meses de idade, ainda é poupado dos incômodos de que padece seu irmão: o enforcador e a focinheira. Os equipamentos de segurança, de uso obrigatório em espaços públicos (conforme determina a lei estadual 11.531), são fichinha perto do que desejam os autores de dois projetos de lei que aguardam votação na Assembléia Legislativa. Um deles obriga a esterilização de cães da raça pit bull e de raças resultantes de seu cruzamento e o outro proíbe a importação, comercialização e criação desses cães (além dos dois projetos, há outros cinco de conteúdo semelhante arquivados, mas que ainda podem ser aprovados).

A retaliação não é gratuita. Em razão dos sucessivos ataques ocorridos na capital, a raça hoje é tida como "criminosa" por boa parte da população. E, ao que parece, também por alguns donos, que têm desistido da criação e abandonado seus pit bulls. Até o início deste mês, o Centro de Controle de Zoonoses de São Paulo resgatou 955 cães da raça, índice que aponta um crescimento de quase 200% em relação a todo o ano de 2006, quando 350 cães foram recolhidos pelo CCZ.

"Devido às últimas notícias [sobre ataques de pit bulls], só em setembro, recolhemos 269 cães. As pessoas ficam assustadas, sofrem pressão de vizinhos e acabam entregando seus cães mesmo quando eles são calmos e não demonstram agressividade", diz Arquimedes Galano, médico veterinário e subgerente de vigilância e controle de animais domésticos do CCZ. Segundo Galano, antes de abandonar um pit bull, é importante avaliar se o animal alguma vez demonstrou sinais de agressividade, como rosnar, ou fez qualquer menção de ataque aos seus proprietários. Se a opção escolhida for entregar o animal, jamais se deve abandoná-lo aleatoriamente nas ruas, pois essa atitude traz riscos tanto para a população quanto para o cão. Basta entrar em contato com o CCZ e solicitar o recolhimento.

Mas nem todos acreditam que pit bulls têm natureza assassina. Há quem defenda que tudo depende da maneira como o animal foi criado. "É um erro acreditar que todos os pit bulls são agressivos. Na América Latina, a situação é complexa. Por pressão social, muitas pessoas estão abandonando esses cães, e, com isso, o problema só aumenta", afirma Néstor Alberto Calderón Maldonado, médico veterinário e presidente da Associação Veterinária Latino-Americana de Zoopsiquiatria e docente da Universidade de La Salle, na Colômbia.

Storm é um pit bull bonzinho, garante o dono. O professor de boxe Rafael Fabregat, 30, diz que, quando passeia com o cão no Ibirapuera, ele serve até de cavalinho para as crianças mais desinibidas, sempre com a aprovação das mães. "O Storm é muito tranqüilo, nunca rosnou ou ficou agressivo. Quando vê uma criança, como alguns filhos de amigos que nos visitam, acaba se escondendo porque sabe que, inevitavelmente, vai levar puxões de orelha", diz.

Mas, mesmo os aparentemente dóceis, criados com carinho, podem um dia ter um "surto" e atacar quem estiver mais perto? "A genética e o ambiente são os responsáveis pelo comportamento. Se o cão for tratado num meio sem nenhuma agressividade, tende a ser calmo. Mas ele tem uma agressividade de origem genética, que pode ou não o fazer reagir violentamente. É possível socializar alguns, não todos", afirma Marco Antonio Gioso, 43, presidente da Anclivepa (Associação Nacional de Clínicos Veterinários de Pequenos Animais) e professor do departamento de cirurgia da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP.

"O fenômeno da agressividade existe quando há maus-tratos. As pessoas são co-responsáveis pelo comportamento de animais agressivos, seja porque ocasionam essa situação, seja porque não gerenciam o problema", ressalta o veterinário colombiano Maldonado.

Agressividade genética
Segundo especialistas, todo cão, independentemente da raça, já nasce com um gene de agressividade relacionado ao seu instinto de sobrevivência, uma vez que descendem de animais que não eram domesticados. É possível definir o grau de agressividade de um animal através de testes específicos realizados apenas por veterinários, que os submetem à situações adversas.

Independente da má fama que ronda a raça, o pit bull mantém seus simpatizantes. Defensores ferrenhos, muitos donos nem sequer pensam em abandonar seus cães, apesar das estatísticas.

Michaella Morena, ou Mika, uma pit bull de dois anos e meio, é responsável pela alegria da família e da criançada, principalmente de Gabriel de Oliveira Couto, 9, afilhado da dona da cadela, que não resiste às brincadeiras do animal.

"A Mika é superdócil e manhosa. Não late para nada e, quando recebe uma bronca, abaixa suas orelhinhas e imediatamente se recolhe em sua casa. Ela dorme abraçada com a gente, como um ursinho", derrete-se a dona, a psicóloga Luana de Souza Morena, 23, que, apesar da onda de ataques, nunca temeu sua pit bull.

Criador de pit bull terrier desde 98, ano em que adquiriu seu primeiro "exemplar", Marcos Botelho defende o aprimoramento genético da raça, escolhendo as cruzas e os futuros proprietários dos filhotes.

De acordo com Botelho, trata-se de uma raça amorosa, dedicada e apaixonada pelos donos. "As histórias e fatos ocorridos, acidentes causados ou provocados, são a imagem da criação indiscriminada de animais sem procedência. Acompanho sempre as notícias sobre acidentes envolvendo a raça e jamais vi um animal aparentando ser bem-criado ou de criação responsável", diz.

Diante de controvérsias sobre o grau de agressividade dos pit bulls, alguns donos estão buscando caminhos alternativos para continuar criando seu animal de estimação de maneira saudável, mais livre e, acima de tudo, evitando amedrontar as pessoas nas ruas. É o caso de Sadam, 6. Para minimizar o tormento ocasionado pelos acessórios de segurança, o arquiteto Daniel dos Santos Moreira, 25, dono do cão, diminuiu os passeios nas ruas da cidade. "Agora, saímos menos porque a focinheira o maltrata muito. Prefiro levá-lo com mais freqüência para a chácara, onde pode ficar à vontade", conta.

Para o veterinário especializado em comportamento animal e professor da Faculdade de Psicologia da PUC, Mauro Lantzman, o pit bull é uma raça nova e, por isso, tem um comportamento imprevisível. "O pit bull é mal adaptado. Ele não é próprio para viver em sociedade, mas não podemos generalizar", diz. "Se você sociabiliza bem, se tem dominância sobre o animal, há menos chance de ataques. Mas nunca incentivaria a compra de um pit bull. Quem quiser ter tem que pesquisar. Não dá para bobear."

FONTE: http://www1.folha.uol.com.br/revista/rf0710200710.htm

Os "irmãos" Storm, 8, e Aquilles, de três meses, dois pit bulls mansinhos, segundo o dono

07/10/2007